Artigo publicado na revista Continente Multicultural, n. 73, Recife, 2007.

 

 

TśNUES DIFERENāAS

 

Canćões populares de Tom Jobim escondem referźncias a Villa-Lobos e ao romantismo enquanto obras sinfônicas assumem os acordes da bossa nova

 

Daniel Wolff

 

Apesar de se consolidar um compositor de música popular, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o nosso Tom Jobim, utilizou bem mais do que imaginamos as técnicas de sua sólida formaćčo musical erudita. Em entrevista a Almir Chediak, Tom Jobim revelou que gostava de ouvir Ravel, Chopin, Bach, Beethoven — cujas obras tocava ao piano — mas que “Villa-Lobos e Debussy sčo influźncias profundas na minha cabeća”. Seu primeiro professor, ninguém menos que Hans Joachim Koellreutter, formado pela Academia de Música de Berlim, foi o líder do movimento Música Viva, que defendia o dodecafonismo de Arnold Schoenberg. Além dos compositores Claudio Santoro e Guerra Peixe, outro aluno ilustre de Koellreutter foi o maestro Isaac Karabtchevisky.

Assim como Villa-Lobos, que tocava violčo em grupos de choro na noite carioca, Koellreutter também demonstrou interesse pela música popular, chegando a trabalhar como saxofonista, tocando sambas e chorinhos no bar Danúbio Azul, na Lapa. Foi possivelmente com Koellreutter e Villa-Lobos que Jobim “descobriu nčo existir fronteiras rígidas entre o erudito e o popular”, como lemos no Cancioneiro Jobim. Tom foi também aluno de piano do concertista espanhol Tomás Terán, amigo de Villa-Lobos, e de Lúcia Branco, professora de alguns dos maiores pianistas brasileiros. Foi Lúcia Branco quem incentivou Jobim a aprofundar-se na composićčo, após ouvir a Valsa Sentimental, para piano, que Tom considerava sua primeira obra.

Composta quando Tom tinha 18 anos, esta valsa ganharia mais tarde letra de Chico Buarque e o título de Imagina. Percebe-se nela uma influźncia de Chopin, cujas obras Tom estudava ao piano sob a orientaćčo de Lucia. A melodia, composta de motivos curtos, desenvolve-se a partir de transposićões desses motivos. Tal procedimento é utilizado por Chopin, por exemplo, na Valsa Op. 64 no 2, em dó-sustenido menor.

Outro músico que desconhecia as fronteiras entre o erudito e o popular, e que teve profunda influźncia na obra de Tom Jobim, foi Radamés Gnattali. Os dois trabalharam juntos na gravadora Continental, onde Tom ingressou em 1952. Radamés era já um compositor e arranjador consagrado, e foi praticamente um pai musical para Tom, incentivando-o e dando preciosas dicas de composićčo e orquestraćčo.

Por sugestčo de Radamés, Tom compôs Lenda, uma obra para piano e orquestra sinfônica, que mescla o caráter impressionista típico de Debussy com o romantismo lírico de Rachmaninov. Quando completou 28 anos, Tom recebeu de Radamés um importante convite: reger Lenda no programa Quando os maestros se encontram, da Rádio Nacional, com Radamés ao piano.

A orquestra da Rádio Nacional era formada por músicos do mais alto calibre, muitos dos quais tocavam também na Orquestra Sinfônica Brasileira e na Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Nčo foi uma experiźncia fácil para Tom, que nčo estava acostumado a reger, mas Radamés, sentado ao piano, ajudou o inexperiente maestro dando entradas para os músicos da orquestra. Percebemos a importČncia que este evento teve na vida musical de Tom Jobim pela frase que ele disse naquela noite aos seus parentes e amigos, que saíram para celebrar com ele após o concerto: “Agora posso morrer. Qualquer lotaćčo pode passar por cima de mim.”

A próxima obra sinfônica de Tom Jobim teve envergadura ainda maior: Sinfonia da Alvorada, para vozes e orquestra, em cinco movimentos, sobre textos de Vinicius de Moraes. A obra foi encomendada em 1958 por Juscelino Kubitschek, para ser apresentada na inauguraćčo de Brasília em 1960. Tom trabalhou nela na mesma época do lanćamento de Chega de Saudade e outras canćões que assegurariam o sucesso da Bossa Nova. Tal qual as sinfonias e poemas sinfônicos de meados do século dezenove — como nas obras de Berlioz, Liszt e, posteriormente, Richard Strauss — Tom concebeu Sinfonia da Alvorada como uma obra programática. O primeiro movimento descreve em música a paisagem do Planalto Central; a chegada dos pioneiros e a construćčo da capital sčo abordados do segundo ao quarto movimentos; a quinta e última parte consiste em um coral comemorativo da conclusčo dos trabalhos de construćčo.

É notória a influźncia de Villa-Lobos, como por exemplo na melodia lenta dos violoncelos no segundo movimento, acompanhada por um ritmo mais rápido em semicolcheias, que parece extraído dos compassos iniciais das Bachianas Brasileiras no 1, de Villa-Lobos. Percebe-se também a influźncia de Radamés Gnattali, como no baičo do terceiro movimento, e até mesmo de Berlioz, no uso do hino medieval Dies Irae tocado pelos metais no quarto movimento.

Por falta de verba, Sinfonia da Alvorada nčo foi estreada em Brasília, conforme originalmente previsto. Mas a obra foi gravada em 1960 no estúdio da Columbia, no Rio de Janeiro, com Vinicius recitando seu texto, Tom na regźncia e Radamés ao piano. O disco foi lanćado em 1961. Apesar da importČncia da obra, ela só voltou a ser tocada em 1966, na TV Excelsior de Sčo Paulo. A estréia pública, por incrível que pareća, só foi realizada em 1986, em Brasília, regida por Alceo Bocchino, com Radamés ao piano e Tom dividindo a leitura do texto de Vinicius de Moraes com a filha do poeta, Susana.

Quinze anos mais tarde, em 2001, trźs movimentos foram apresentados em dois concertos pela orquestra Sinfonia Cultura, de Sčo Paulo, sob a regźncia de Flávio Chamis. Tive a felicidade de participar destas apresentaćões como solista, tocando um concerto de Radamés Gnattali e meu arranjo de Amadeste, de Thiago de Mello. Fomos prestigiados pela presenća do filho de Tom, Paulo Jobim. Enquanto conversávamos no camarim, antes do concerto, Paulo manifestou sua tristeza por uma obra tčo importante ser tčo pouco tocada.

Nos diz o Cancioneiro Jobim que “quando a sinfonia ficou pronta, Tom e Vinicius despediram-se para sempre da música erudita”. Já Celso Loureiro Chaves diz que “quanto a Jobim, isso nčo é bem verdade, a julgar pela ‘eruditizaćčo’ que aconteceria mais tarde em Urubu, Terra Brasilis e Matita Perź”. De fato, a influźncia de autores (ditos) eruditos é uma constante em Jobim, seja nas obras orquestrais, seja nas canćões populares.

Tom comentou que em Chega de Saudade usou uma sucessčo de acordes “que é a coisa mais clássica do mundo”. Disse também que a Bossa Nova tem “influźncias profundas de Villa-Lobos”. Quanto ą harmonia, reconhecia a influźncia de Debussy e Ravel no uso de acordes expandidos. Absorveu muito também de Gershwin, como em Chansong.

Vejamos alguns aspectos da música de Jobim nos quais estas influźncias podem ser observadas. O desenvolvimento melódico através da repetićčo e transposićčo de motivos curtos, do qual falamos acima, foi herdado nčo apenas de Chopin, mas também de Gershwin. Outra importante influźncia de Chopin foi a harmonia de condućčo de vozes, com uma nota permanecendo estacionária enquanto as outras vozes movem-se paralelamente de um acorde para outro. Vemos isto em canćões como Passarim, Canta Mais, Falando de Amor, e até mesmo em Samba de uma Nota Só.

Procedimento semelhante foi muito usado por Villa-Lobos, principalmente nas obras para violčo, nas quais as harmonias sčo obtidas pelo movimento paralelo dos acordes na mčo esquerda, sobrepostos a notas estacionárias nas cordas soltas. Quanto ą melodia, percebemos a influźncia de Villa-Lobos principalmente nos desenhos melódicos das canćões lentas. Os arpejos da melodia de Luiza, alcanćando por salto as parciais agudas dos acordes, lembram os procedimentos usados por Villa-Lobos no Prelúdio das Bachianas Brasileiras no 4.

Em suma: Tom Jobim é, sim, um músico popular, mas a influźncia da música erudita em sua obra é inegável. O curioso é que, pelo menos na década de 1960, isto nčo era reconhecido por alguns expoentes da música erudita.

Em 1968, Isaac Karabtchevisky tentou organizar um concerto com a Orquestra Sinfônica Brasileira tocando arranjos das canćões de Jobim, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Instigados pelo crítico de música erudita do Jornal do Brasil, alguns compositores de renome manifestaram ferrenha oposićčo ao concerto, sob o argumento de que “o Teatro Municipal nčo é lugar de música popular”, conseguindo por fim impedir a realizaćčo do concerto.

Felizmente, nos dias de hoje a situaćčo é bem diferente. Prova disto é o projeto Jobim Sinfônico, gravado em CD e DVD, no qual a Orquestra Sinfônica do Estado de Sčo Paulo apresentou, em 2002, diversas obras de Tom Jobim sob a regźncia do maestro Roberto Minczuk. Do repertório constavam tanto as clássicas Lenda e Sinfonia da Alvorada como arranjos orquestrais de diversas canćões. Fica uma sensaćčo do qučo tźnue é a fronteira entre o erudito e o popular na música de Jobim: as obras sinfônicas sčo permeadas de motivos e ritmos populares, enquanto as canćões demonstram a erudićčo de um apreciador convicto de Chopin, Debussy e Villa-Lobos.

 

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